Quando alguém revela capacidades intelectuais reduzidas costuma ser apelidado de “burro”. Há muitos, mas mesmo muito anos, nas escolas primárias, as crianças que não aprendiam, eram “burras” e às vezes ostentavam mesmo umas enormes orelhas de burro. Estas crianças eram alvo fácil da chacota de todas as outras que não se cansavam de em todas as brincadeiras as chamarem de “burros”.
Quando alguém faz alguma coisa de que sai directa, ou indirectamente, prejudicada, essa pessoa também é chamada de “burra”. Chamar “burro” a alguém, é depreciativo por significar na gíria estupidez ou teimosia exacerbada.
São muitas as locuções que ouvimos com este nome. “Burro de carga”, que significa aquele que aguenta todos os trabalhos. “Estar com os burros” que é, nem mais nem menos, que estar mal humorado. “Vozes de burro não chegam ao céu”, isto é, palavras ocas não merecem atenção. Para além disso, há um popular jogo de cartas em que se “joga ao burro” – e este jogo, pode ser burro em pé ou burro deitado, consoante a forma como se coloca o baralho.
Mas burro, burro mesmo, é o nome vulgar de um mamífero menos corpulento que o cavalo, mas com orelhas mais compridas. Também o conhecemos por asno, jumento ou cavalgadura. A história que tenho hoje para contar, de que desconheço o autor, fala destes animais e reza assim:
Certo dia, o burro de um aldeão caiu num poço. O animal fartou-se de zurrar. Zurrou tão fortemente durante horas e horas que o dono inquieto por não conseguir tirá-lo sozinho, resolveu ir procurar ajuda para o retirar. Não a encontrando, acabou por decidir que, sendo o burro já velho e estando o poço seco, o melhor que tinha a fazer era sacrificar o burro. Tapava o poço e o burro ficava lá enterrado. O aldeão pegou numa pá e começou a atirar terra para dentro do poço. O burro, ao ver o que se estava a passar, começou desesperadamente a zurrar. Mas, pouco depois, e para surpresa do aldeão calou-se, e o único som que se ouvia era o som das pazadas de terra a cair. Pensando que o burro estava morto, o aldeão, olhando para o fundo do poço, não pode esconder o seu espanto ao ver o que o burro estava a fazer. O animal de cada vez que caía uma pá de terra, sacudia-a para trás das suas costas e dava mais um passo para cima dela. A realidade é que rapidamente, pazada atrás de pazada, o aldeão, viu com os seus próprios olhos, como o burro chegou à boca do poço, saltou por cima e aí vai ele a caminho do seu pasto.
Como todas as histórias, há sempre uma lição a tirar. Sendo Teóloga, gosto de aproveitar estas histórias para ensinar sobre a Bíblia. No entanto, também acredito que cada um dos leitores, a saberá relacionar com a sua própria cosmovisão. E a história que contei hoje pode ser tão facilmente relacionada com a vida que se vive todos os dias.
Quantas vezes, os nossos actos e porque não assumi-lo, até os nossos pensamentos, “nos atiram” tanta coisa para cima. Gostamos de culpar a vida e o destino mas fomos nós que, face a determinadas circunstâncias, tomámos decisões. Se há culpados, somos nós próprios. Nós é que caímos no poço.
Por vezes, encontramo-nos no que parece “um buraco sem saída”. E nessas ocasiões, parece que a situação em vez de melhorar rapidamente, piora a cada instante. É aqui que entra a história do burro.
A exemplo da história do burro, a “vida” vai-nos atirar muita terra para cima, e terra de todos os géneros, até parecer que estamos no fundo de um poço, onde a escuridão nos abafa e nos paralisa.
O que temos de fazer é não desistir nunca. Se olharmos para cima, a luz está lá para nos encorajar e dar direcção. Para sairmos “do poço”, temos que sacudir “toda a terra” e usá-la para darmos um passo de cada vez, sempre em direcção à luz que vem de cima.
Cada um dos nossos problemas é apenas a oportunidade de construirmos um degrau para subir, e continuar a subir até estarmos a salvo. Não vale de nada vitimizar-nos. Antes, temos que ser responsáveis e usar a terra que nos foi atirada, para subirmos, degrau a degrau, com rumo, em direcção a tudo o que temos direito.
Encontrei esta história de autor desconhecido que adaptei um pouco e que serve um propósito. O propósito de, numa pequena leitura de fim de dia, ser um convite a uma retrospectiva do nosso dia. Num sentido figurado, todos os dias encontramos pedras, às vezes pedregulhos enormes e a atitude que temos perante eles influencia a nossa forma de ser e estar. Que pedras encontrámos hoje no caminho? Qual foi a nossa atitude?
Conta-se que um rei que viveu num país para além-mar, há muito, muito tempo, era muito sábio e não se poupava a esforços para ensinar bons hábitos ao seu povo.
Com alguma frequência tinha ideias e fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas, na verdade, tudo o que fazia era para ensinar o povo a ser trabalhador e cauteloso.
“Nada de bom pode vir a uma nação” – dizia ele – “cujo povo está sempre a reclamar e espera que os outros resolvam os seus próprios problemas. Deus dá as coisas boas da vida a quem lida com os problemas por conta própria”.
Uma noite, enquanto todos dormiam, o rei dirigiu-se a um dos caminhos mais frequentados do seu reino e colocou uma enorme pedra na estrada que apanhava grande parte da sua largura. Depois foi-se esconder atrás de um arbusto e ali ficou, durante todo o dia, a ver o que acontecia à medida que as pessoas lá chegassem.
Primeiro veio um camponês com uma carroça carregada de sementes que levava para a moagem no moinho. Parou e não se poupou nas criticas:
“Quem é que já viu tamanho descuido?” Dizia ele contrariado, enquanto desviava a sua carroça e contornava a pedra.
“Porque é que esses preguiçosos do rei não mandam retirar esta pedra da estrada?”
E assim continuou reclamando da inutilidade dos outros, mas sem que ele próprio, ao menos tentasse desviar a pedra.
Logo passado um bocado chegou um jovem soldado que vinha alegre, cantando pela estrada. A longa pluma no seu boné ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia da sua cintura.
Ele pensava na enorme coragem que mostraria em caso de guerra e não viu a pedra. Tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento.
Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente tinham largado aquela enorme pedra na estrada.
Enfurecido foi como ele se afastou sem pensar uma única vez que ele próprio poderia dali retirar a pedra.
E assim correu o dia… Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra no meio da estrada, mas ninguém a afastava.
Finalmente, já ao fim do dia, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo tinha ajudado o pai no moinho, a mãe na lida da casa e já tinha distribuído toda a farinha pelos clientes da família. No entanto, ao deparar com a pedra no seu caminho, disse para si mesma: “Já está a escurecer e com esta pedra aqui, alguém pode tropeçar e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho”.
E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar.
Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra. Ergueu-a. Era pesada, pois estava cheia com alguma coisa. Na tampa estavam escritos os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra”.
Abriu-a e, admirada, descobriu que estava cheia de ouro.
Foi então que o rei apareceu por detrás do arbusto onde tinha ficado todo o dia e lhe disse com carinho: “Minha filha, com frequência encontramos obstáculos, problemas e muitos fardos difíceis de carregar no nosso caminho. Podemos reclamar em alto e bom som enquanto nos desviamos deles, se assim preferimos; ou podemos erguê-los e descobrir o que eles significam. A decepção, normalmente, é o preço da preguiça”.
Após isto, o rei sábio montou no seu cavalo e, com um delicado boa noite, retirou-se.
No nosso dia a dia não somos poupados a trabalhos, dores, problemas e vissicitudes com que não contávamos. No entanto, é-nos dada a possibilidade de reagir e avançarmos. A vida não pára e se tantas vezes ficamos com pena ou saudades do que ficou para atrás, a verdade é que também nos é permitido sonhar com aquilo que está para diante.
É no conservar o sabor das derrotas que temos que iniciamos a caminhada para as vitórias que virão. Em tudo temos que reagir e continuar a avançar.
É mais fácil se, à medida que caminhamos e andamos para a frente, não vamos deixando as pedras que encontrámos. É que podemos tropeçar sempre que a memória nos levar para elas. É bem melhor recordar as lições que cada uma nos ensinou quando a afastámos do caminho.
Seja qual for a idade, não há nada como uma boa história. Aliás, à medida que os anos nos levam para longe dos Super-heróis, das fadas, dos príncipes e princesas, das aventuras, dos polícias e ladrões, etc., começamos a ouvir e a contar um outro tipo de histórias que, apesar de continuarem com personagens onde entram os bons e os maus são, muitas vezes, perigosamente reais, baseadas em pessoas que conhecemos, de que ouvimos falar, que fazem parte do nosso quotidiano ou, até, que nunca vimos à nossa frente.
Um dos ingredientes fundamentais para estas histórias terem sucesso é a sua proximidade com a realidade e, mesmo que não passem de rumores e não tenham acontecido… podiam muito bem ter acontecido. É infalível a pergunta que estimula a curiosidade de cada um: “já sabes da última?” Ninguém resiste a uma boa história!
Ouvimos, contamos, às vezes tornamos a ouvir de uma outra fonte e tornamos a contar. Não é difícil fazermos isso. Enquanto o fazemos sentimo-nos de alguma forma incluídos. Nestas peripécias de ouve e conta e escuta e conta outra vez, às vezes, há a tendência para cortar ou acrescentar um bocadinho; outras vezes, porém, são histórias mirabolantes, do arco da velha que, sem confirmação, acabam por passar de boca em boca e dar lugar ao que chamamos de “mitos urbanos” e, quando envolve pessoas que se querem atingir, são o que chamamos “boatos”.
Ninguém pode dizer que não somos um país pródigo tanto em “mitos” como em “boatos”. Da política ao futebol, das coscuvilhices da esquina até às conversas de café, tudo se sabe, tudo se julga, tudo se opina, nada escapa, tudo se acrescenta, tudo se garante como verdade adquirida.
Vem isto a propósito duma história que vos quero contar. Ao que parece, um senhor que pela sua idade só podia ser uma pessoa respeitável, a propósito de uns roubos que aconteciam na sua freguesia, tanto falou que o seu vizinho era ladrão que o rapaz acabou mesmo por ser preso. Algumas semanas depois, descobriram que afinal o rapaz era inocente daquilo que estava acusado. O rapaz foi solto e processou o homem.
No tribunal, quando finalmente chegou o dia do julgamento, o senhor que tinha levantado o boato diz ao juiz: “não sei porque foi preciso chegar a isto de ter que vir a tribunal. Toda a gente faz comentários e toda a gente sabe que isso não faz mal nenhum”.
Olhando atentamente para o homem na sua frente, o juiz depois de o escutar, acaba por lhe responder: “Meu caro senhor, escreva os seus comentários em diversas folhas de papel, depois dobre cada uma e coloque-as na beira do caminho até sua casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença”.
O senhor obedeceu e voltou no dia seguinte. – Antes da sentença, terá que ir buscar todos os pedaços de papel que espalhou ontem, disse o juiz.
Responde então o homem: – Senhor Doutor Juiz, não posso fazer isso. O vento deve tê-los espalhado todos e já não sei onde é que poderão estar. Responde então o juiz: – Da mesma maneira que as suas folhas de papel se espalharam, assim é um simples comentário quando tantas vezes é repetido de boca em boca. Pode destruir a honra de um homem, a ponto de não podermos consertar o mal. Se não se pode falar bem de uma pessoa, meu caro senhor, é melhor que não se diga nada. Sejamos donos da nossa boca, para não sermos escravos das nossas palavras.
Qual é a moral da história? Pois é, as boas histórias fazem-nos sempre pensar numa aplicação prática. Pois aqui está:
Pessoas inteligentes falam sobre idéias! Pessoas comuns falam sobre coisas! Pessoas mesquinhas falam sobre pessoas! (Autor Desconhecido)